A construção do plano cultural da moda no Brasil.
Reunidos em Brasília, em novembro do ano passado, os 15 representantes da moda no Conselho Nacional de Política Cultural aprofundaram o conteúdo do plano cultural para o setor, que deve ficar pronto em 2011. O documento vai compor o Plano Nacional de Cultura, com o intuito de desenhar o planejamento para a cultura nos próximos dez anos.
As diretrizes do documento foram definidas no I Seminário da Cultura na Moda, realizado em Salvador entre 27 e 29 de setembro do mesmo ano. Depois disso, um grupo – escolhido no próprio evento – ficou responsável por fazer a formatação técnica do conteúdo.
Durante a reunião ordinária do Conselho Nacional de Políticas Culturais, foram apontados quatro eixos orientadores para o documento: Cultura, Memória e Criação; Estado, Instituições e Redes; Formação, Educação e Pesquisa; e Financiamento, e Economia da Cultura. A partir dessas quatro grandes áreas serão definidas as diretrizes executivas e ações do Ministério da Cultura para o segmento.
Neste I Seminário de Cultura da Moda, o ex- ministro da Cultura , Juca Ferreira destacou o papel do Estado nesse novo momento. “Cultura é necessidade fundamental dos cidadãos. Se é direito, o Estado tem papel”, afirmou. Nosso papel – diz ele – não é fazer, mas criar condições para quem faz. (Veja ao final, trechos do discurso do ministro no evento.)
Também presente ao primeiro dia de debates, o diretor da São Paulo Fashion Week, Paulo Borges, elogiou o seminário como um primeiro passo para a construção dessa política. De acordo com ele, para se desenvolver realmente uma cultura de moda no país é necessário ter, ao mesmo tempo, boas escolas, indústria têxtil forte, como toda a cadeia produtiva atuando de forma inovadora.
Na visão, de Juca Ferreira, o Estado tem papel de oferecer linhas de crédito, estimular a criação de escolas de formação e valorizar todas as modas possíveis de serem disponibilizadas. Assim como defende Borges, a visão do ministério é que a política cultural promova a criação, a inovação e a experimentação, agregando essas caracteríticas aos produtos da moda. Para se ter ideia da força dessa economia, em 2009, a indústria têxtil do país movimentou US$ 47 bilhões.
Assento no CNPC
E Agora que a moda passou a ser compreendida pelo Ministério da Cultura como uma linguagem artística, o setor ganhou um assento no Conselho Nacional de Política Cultural! Os nomes do titular e do suplente foram definidos no mesmo encontro que debateu o plano cultural. O estilista Ronaldo Fraga (titular) e o empresário Paulo Borges (suplente) assumem a cadeira para o biênio 2010/2011.
Trechos do discurso de Juca Ferreira:
“ Buscamos desde o início de nossa gestão um diálogo constante com o setor de moda no Brasil. Isto porque acreditávamos que o Ministério da Cultura precisava, por uma série de razões, estreitar laços com os criadores e profissionais, as associações e instituições setoriais, assim como com os empresários e produtores deste complexo sistema da moda que estamos formando de uma maneira bem brasileira.
A primeira razão era que assumimos uma forte agenda de economia da cultura e a moda era peça central nesta perspectiva aberta. Sabíamos que seria impossível desenvolver um modelo de desenvolvimento cultural sustentável para os inúmeros segmentos que estabelecíamos como focos de nossa atuação se nós não levássemos em conta a força agenciadora e propulsora que a moda tem. O cinema, as artes visuais, as manifestações tradicionais, a música, o teatro e tantos outros segmentos,precisam para se reposicionarem na sociedade contemporânea que suas cadeias produtivas sejam atravessadas pela moda, re-situando no mundo do consumo estas linguagens e tradições.
A primeira razão era que assumimos uma forte agenda de economia da cultura e a moda era peça central nesta perspectiva aberta. Sabíamos que seria impossível desenvolver um modelo de desenvolvimento cultural sustentável para os inúmeros segmentos que estabelecíamos como focos de nossa atuação se nós não levássemos em conta a força agenciadora e propulsora que a moda tem. O cinema, as artes visuais, as manifestações tradicionais, a música, o teatro e tantos outros segmentos,precisam para se reposicionarem na sociedade contemporânea que suas cadeias produtivas sejam atravessadas pela moda, re-situando no mundo do consumo estas linguagens e tradições.
A segunda razão é que ao construirmos uma política internacional para a área cultura, redesenhando nossos marcos de presença global, trazer a moda para junto disso era um objetivo de primeira hora de nosso Governo. A moda nesse processo é um marco da nossa capacidade criativa e o grande veículo de difusão de nossas particularidades culturais, pois através dela podemos e devemos ser reconhecidos em todos os cantos do planeta de maneira positiva e consistente. Ela é um grande vetor de difusão de nossa diversidade brasileira pelo mundo, de traduzir nossos hábitos, nossas maneiras de ser e de sentir, nossa sensualidade e nosso jeito de viver o corpo no ambiente, tudo aquilo que nos dá feições brasileiras.
A terceira razão é que a moda é importante dinamizador do contexto sócio-cultural das cidades brasileiras. A moda hoje é um ponto forte para fazer a conexão cultura com o desenvolvimento de contextos urbanos complexos, como são os das nossas cidades que crescem com grande velocidade. Identificamos que as políticas locais demandavam investimentos no setor de moda, pois os agentes ali situados acreditavam que ela era uma das principais formas de afirmação cultural e de geração de renda daquelas realidades específicas.A moda hoje também é uma tecnologia social. Através dela podem ser gerados processos de incorporação simbólica de segmentos sociais e matrizes culturais partes da nossa formação, mas que carecem da visibilidade e reconhecimento por puro preconceito social.
Outras tantas razões foram aparecendo durante nosso percurso, outra tantas ainda estão por surgir na medida em que evoluímos neste diálogo.
Já sabemos que devemos construir centros de memória e de formação de alta qualidade; trabalhar com a difusão do repertório brasileiro de moda, apoiar os jovens talentos entre os criadores, ampliar e propiciar a nacionalização dos circuitos e semanas de moda; ajudar desenvolver a moda como um setor importante da nossa economia criativa, apoiar o desenvolvimento de um setor editorial e jornalístico, e assim por diante. Creio que estas questões todas vão ser delineadas de maneira mais precisa e profunda aqui nestes dias, tornando-se em breve um Plano Setorial de Cultura da Moda, documento que direcionará as diretrizes do Plano Nacional de Cultura. O plano será o guia de navegação que orientará investimentos do Fundo Nacional de Cultura e de seus programas específicos, permitindo também a avaliação sistemática dos resultados obtidos e as correções de rota.
O setor da moda já é e será cada vez mais um protagonista do redesenho desse Brasil que mostra sua cara e da presença brasileira neste novo mundo que se abre com o novo século que estamos começando. A construção de estratégias culturais da moda será uma grande contribuição para nosso país.” Juca Ferreira.







